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Jornalista - SP

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TENDÊNCIAS/DEBATES - (15/1/2009) na Folha de SP
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
Resposta ao artigo de:
Em defesa da caça
ANTONIO AUGUSTO MARTINS CESAR
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Em defesa do caçado
RENATA BUCCIARELLI
A atriz Maitê Proença disse uma frase - "Se o desorientado do Bush caçasse, não teria invadido o Iraque".
Realmente ela foi muito infeliz em seu comentário; mas me pergunto: - Qual o sentido da frase? Será que ela não estava querendo usando uma metáfora? Será que ela estava falando do ex-presidente americano ou da caça?
Isso criou uma enorme polêmica. Acho Maitê Proença uma ótima atriz, repito, foi um comentário extremamente infeliz,
mas essa frase não muda em nada a minha forma de pensar.
A partir desse comentário os ambientalistas se manifestaram, isso é óbvio, mas está claro também que os que apóiam a defesa dos caçadores, pegaram carona na fama da atriz para usá-la como bandeira a favor da caça.
Quanto a sua frase: - "Em poucos países do mundo a caça é assunto tão universalmente abominado quanto no Brasil", não entrarei no mérito da questão porque gramaticalmente ela é digamos assim um tanto quanto... difícil de entender.
A caça não traz beneficio algum em qualquer lugar desse planeta, só em caso de fome, universalmente falando.
Sr. Antonio Augusto existe na natureza uma coisa muito séria chamada Equilíbrio, não sei se o sr. já ouviu alguma coisa ou pesquisou sobre esse assunto. A maior força do mundo é a da natureza, quando enfurecida nada pode contra ela.
Funciona mais ou menos assim, "um exemplo", se os caçadores matarem indiscriminadamente os jacarés, o rio vai quadruplicar o numero de piranhas, aí não passa gente, animais, barcos, etc. Afeta o turismo que é uma indústria que gera milhões para esse belo país. Gera muito mais do que a sua pesquisa de 75% do orçamento dos Game and Fish Departments dos EUA.
O sr. lida com leis, sabemos que algumas delas são burladas em quase todos os sentidos, em todos os países, todos os dias. A corrupção está na nossa frente diariamente, os veículos de comunicação estão aí para mostrar. As pessoas muitas vezes querem gritar, querem ser ouvidas, ligam, denunciam, fazem abaixo assinados, se sentem revoltadas, indignadas, injustiçadas e não conseguem nada por inúmeros fatores como condição social, falta de dinheiro, burocracia e por aí vai...
Na África continua o contrabando de marfim, mãos de gorilas vendidas como cinzeiro, diamantes, crianças com armas na mão matando os próprios pais, isso é proibido mas continua, a coisa é muito mais séria e profunda do que o sr. pensa.
Por outro lado, existe o "Parque Kruger" que é uma reserva com animais livres vivendo naturalmente, onde com jipes adequados e guias, as pessoas fazem safaris fotográficos. Isso gera renda e emprego para muitas pessoas, além de movimentar o mercado do turismo e da fotografia, sem machucar ou incomodar os animais.
Em muitos lugares da África a vida humana não vale nada que dirá a dos animais.
Vivemos em uma democracia não é? O sr. acha uma pena a proibição da caça porque quando bem regulamentada, traz benefícios para economias, populações envolvidas e meio ambiente.
Eu não acho, aliás eu sou radicalmente contra. Civis, com alto índice de crianças, morrem todos os dias vítimas de balas perdidas, assaltos,confrontos; está difícil desmantelar o tráfico de armas, temos problemas suficientes com armas, não precisamos mesmo discutir ou debater sobre caça, isso é um despropósito.
Mesmo sendo proibido aqui no Brasil muita gente caça, temos também a farra do boi, os animais sofrendo maus tratos em circos, é um assunto que está sempre em pauta, na mídia, governo e sociedade civil.
Nesse novo e rico mercado chamado Terceiro Setor não existe aventurismo nem ecologismo, trata-se de "Ambientalismo" e "Turismo Ambiental". Nesses dois setores geradores de empregos, atuam ministros, vereadores, deputados, médicos, engenheiros, jornalistas, fotógrafos, agrônomos, paisagistas, dentistas, agências de viagem, mídia, veterinários, professores, advogados, Ongs, estudantes, até voluntários; enfim além da preocupação com o meio ambiente, a geração de renda é muito grande, muita coisa é debatida, discutida, pode acreditar.
Desculpe mas procurei a palavra aventurismo em dois dicionários e não encontrei.
Quanto aos "caçadores enrustidos" que o sr. se refere, realmente não entendi bem essa parte.
A vida tem que ser respeitada - enfrente um animal em pé de igualdade e você perceberá que não é tão inteligente como pensa, essa é a minha verdade, pelo menos é nisso que acredito.
A multidão apreciaria muito mais viver em um país onde se respeita o planeta, o homem, a fauna, a flora, a água,
a educação, a saúde, o saneamento básico, a segurança, a comida no prato e o salário no bolso.
Deixemos os animais em paz, eles tem muito o que nos ensinar.
Renata Bucciarelli
47 anos
Jornalista
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
Em defesa da caça
ANTONIO AUGUSTO MARTINS CESAR
UMA FRASE da atriz Maitê Proença ("Se o desorientado do Bush caçasse, não teria invadido o Iraque") levantou uma polêmica que tem o efeito positivo de abrir espaço para a discussão de um tema cercado de preconceitos.
Em poucos países do mundo a caça é assunto tão universalmente abominado quanto no Brasil. É pena. A caça, quando bem regulamentada, traz benefícios para economias, populações envolvidas e meio ambiente. Pode-se gostar ou não da ideia de caçar, mas renegar a atividade como um todo, a priori, é uma grande besteira.
A primeira confusão na cabeça das pessoas que não querem nem ouvir falar do tema é não saber diferenciar caça legal de caça ilegal. É algo como pensar que tudo o que entra no país, do exterior, é contrabando.
A caça legal é uma indústria que movimenta muito dinheiro por ano no mundo todo e, nos países onde a prática é regulamentada, tem o aval, se não a coordenação direta, dos ministérios envolvidos com a conservação do meio ambiente. A caça ilegal é praticada por criminosos, geralmente em regiões remotas de países com poucos recursos para fiscalização.
Por que a regulamentação da caça pode ser benéfica? a) Gera receita para conservação.
Cerca de 75% do orçamento dos Game and Fish Departments dos EUA, responsáveis pela aquisição de terras e manutenção de parques, decorre direta ou indiretamente da caça.
b) Ao atribuir valor à vida selvagem, oferece uma fonte de renda segura às populações locais, que passam a ser aliadas na exploração controlada.
c) Oferece incentivo financeiro para que fazendeiros (terras privadas) ou o governo (reservas e concessões de caça) mantenham amplas áreas em seu estado natural.
d) É um grande auxiliar no controle de populações de animais que tendem a se expandir de forma perigosa.
e) Permite manejar de forma mais eficaz a fauna selvagem. No caso do blesbok (Damaliscus dorcas phillipsi) sul-africano, por exemplo, populações quase dizimadas em algumas áreas foram restabelecidas graças a sua reintrodução por e a partir de fazendas de caça.
A segunda confusão comum diz respeito à caça de animais em extinção. A caça legal, via de regra, não os contempla. Às vezes, algum governo oferece, geralmente em leilões e com aprovação da Cites (Convention on International Trade in Endangered Species), poucos exemplares de alguma espécie constante das listas de animais em perigo. Faz isso para conseguir mais dinheiro para conservação, em casos em que obteve sucesso na reprodução e no manejo da referida espécie em determinada área, obtendo populações viáveis e com algum "excedente".
Em 2004, por exemplo, a CITES levantou a proibição total da caça legal ao rinoceronte negro, e aos governos de Namíbia e África do Sul foi permitido dispor de uma quota anual de cinco animais cada para fins de caça.
O potencial de recursos angariados é alto: cada rinoceronte é avaliado em cerca de US$ 60 mil.
No que se refere a animais que não correm perigo de extinção, há também exemplos interessantes. Na Tanzânia, de 1977 a 1983, a caça foi proibida. Em 1977, estimava-se em 380 mil o número de elefantes no país. Em 1983, essa população havia caído para 80 mil, sobretudo porque não se conseguia frear a caça ilegal. Com o restabelecimento da caça controlada, os números subiram: hoje, há cerca de 120 mil elefantes na Tanzânia.
No Quênia, que também proibiu a caça em 1977 e a mantém proibida até hoje, a população de elefantes declinou de 170 mil para 25 mil. De uns dois anos para cá, o debate em torno da reabertura da caça controlada no Quênia tem se intensificado.
Seria ótimo se o debate se intensificasse aqui também. Uma vez mais, ninguém é obrigado a gostar de caça.
No Brasil, onde os discursos que envolvem o campo se limitam ao ecologismo e ao aventurismo, a probabilidade de a caça se tornar prática apreciada por multidões é reduzida. Mas não precisaria ser sempre ilegal. Nossa fauna -e não só caçadores enrustidos- poderia ganhar com isso.
ANTONIO AUGUSTO MARTINS CESAR, 34, bacharel em direito, é diplomata de carreira.